Quem salva o entusiasmo do encontro entre Dilma e Obama?

PODEM ATÉ salvar a visita de Estado da presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos, marcada para o fim de outubro, mas reinjetar entusiasmo serão outros quinhentos.

Verdade, as últimas declarações do presidente Barack Obama para a arapongagem da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) até têm o potencial de aliviar o mal-estar entre os dois países.

Mas que não se subestime, como andam fazendo alguns comentaristas americanos, o poder de estrago das denúncias sobre umas relações que já eram “cordiais, porém rasas”, nas palavras certeiras de Paulo Sotero, presidente do Brazil Institute, do centro de estudos Wilson Center, aqui em Washington.

Na Rússia, após se encontrar com Dilma na cúpula do G20, o líder americano articulou uma espécie de mea culpa pelas atividades da NSA:

“O que é verdade é que somos maiores”, disse Obama, referindo-se à rede de espionagem do seu país. “A diferença entre nossa capacidade e a dos outros países provavelmente reflete a diferença em capacidade militar entre os países”, continuou.

“É importante para nós dar um passo atrás e rever o que estamos fazendo, porque obter informações só porque podemos não quer dizer que deveríamos”, refletiu. “Fazer certas coisas tem custos e benefícios, e precisamos pesá-los.”

Agora o Planalto aguarda explicações por escrito que, segundo Dilma, devem chegar até a quarta-feira. Só então ela avaliará se há “condições políticas” para vir aos EUA em caráter de Estado em outubro.

É ou não é?

Mas mesmo que os planos se mantenham, serão inevitáveis os questionamentos sobre se a relação Brasil-EUA é de fato “estratégica”.

“Amigos, inimigos ou problemas?” – perguntava-se a NSA sobre o governo brasileiro em uma apresentação de slide, segundo reportagem do Fantástico, da TV Globo.

É questionável que o raciocínio seja válido mesmo para se referir ao auge da tensão Brasil-EUA, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfureceu os americanos ao negociar ao lado da Turquia uma saída para o impasse nuclear envolvendo o Irã.

Aquela negociação foi feita com pleno aval do governo americano, ou seja, não se tratou propriamente de uma bola nas costas. E segundo a diplomacia brasileira, a então secretária de Estado, Hillary Clinton, foi uma das primeiras a saber do acordo em um telefonema do próprio ex-chanceler Celso Amorim.

Reza a ciência das relações internacionais que, da mesma forma que dois corpos nunca ocupam o mesmo lugar no espaço, não existe vácuo de poder nas dinâmicas entre os países. Só sob essa lógica, uma ascensão geopolítica do Brasil representa uma concorrência com o poderio americano.

Na prática, em muitos aspectos a ascensão do Brasil se dá através de parcerias com os EUA: por exemplo, em programas de cooperação agrícola em terceiros países ou militar em forças de paz da ONU.

Desde que foi eleita, Dilma tem cuidado de aparar arestas. Em abril do ano passado, quando alguns analistas acharam desfeita a Casa Branca não oferecer um cerimonial de Estado para ela, a presidente veio e se foi sem criar problema.

O constrangimento político em que o governo americano a meteu enfraquece a agenda positiva que prevê cooperação entre governos e empresas em áreas como educação, energia e aeroespacial.

Além disso, iniciativas que envolvam maior compartilhamento de informações, como a inclusão do Brasil no programa Global Entry, que facilita as viagens entre os dois países, ficam mais difíceis.

Não é que tudo esteja parado à espera das tais “condições políticas” que a presidente mencionou. Mas mesmo as havendo, não quer dizer que haja exatamente entusiasmo.

(Foto: Obama e Dilma no Brasil em 2011. Antonio Cruz/ Agencia Brasil)

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