Venezuela: Santo Chávez, transição incompleta

ZAPEANDO PELOS canais de TV, às vezes me detenho em um programa chamado Long Island Medium, sobre uma médium de Long Island, estado de Nova York, que viaja pelos EUA oferecendo consultas a famílias que perderem um ente querido.

Somos, os telespectadores, apresentados a famílias que precisam ouvir de seus falecidos uma palavra final antes de poderem prosseguir com suas vidas. A eles, a médium e apresentadora Theresa Caputo oferece uma rápida consulta – e todos seguem adiante.

Que os céticos duvidem dos poderes especiais de Theresa, me parece irrelevante: sua missão não é simplesmente ouvir os mortos, mas dar uma chance aos vivos.

A atração me vêm à cabeça quando leio que o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, anunciou o “aparecimento” do rosto do seu antecessor, Hugo Chávez, para trabalhadores de uma obra do metrô de Caracas (eis uma reportagem do diário espanhol El País).

“Chávez está em todas as partes, somos todos Chávez”, disse Maduro. Uma semana depois, ele instituiu um dia dedicado à “lealdade e amor” ao ex-presidente (ainda no El País).

O principal capital politico do atual líder venezuelano de fato talvez tenha sido sempre a lealdade ao ex-Comandante. No poder, em vez de tentar livrar-se da influência de Chávez para imprimir seu próprio estilo de administrador – como é de se esperar nestes casos –, Maduro tem feito o oposto: tenta colar sua imagem à de seu mentor a qualquer custo.

Em abril, quando eu estava em Caracas cobrindo a eleição presidencial venezuelana, me surpreendia que Maduro às vezes retuitasse posts que Chávez escrevera meses, anos antes em sua conta @chavezcandanga, hoje inativa.

Era época de eleições, estávamos a apenas semanas da morte de Chávez, e era de bom tom respeitar os sentimentos, sem dúvida verdadeiros, que os dois homens desenvolveram em décadas percorrendo a mesma senda política.

No contexto de eleições-relâmpago, e incertas, era razoável perdoar Maduro por lançar mão da imagem de um pajarito que vinha lhe soprar segredos ao ombro – ninguém menos que o próprio Chávez, conectado metaforicamente, espiritualmente a Maduro pelo bem do futuro da Venezuela.

De gosto mais duvidável me pareceram as discussões sobre preservar ou não o corpo de Chávez para visitas públicas, como um Lênin moderno, uma ideia que muita gente achava inclusive improvável que Chávez aprovasse.

Passados mais de seis meses da morte do líder bolivariano, as mensagens públicas de Maduro fazem referência ao ex-presidente tanto quanto ao seu próprio governo.

Uma rápida olhada no Twitter presidencial revelará tantos posts sobre o mandatário anterior quanto o atual. Maduro inclusive já declarou que às vezes passa a noite no museu histórico militar que abriga os restos mortais de Chávez, em Caracas – ajuda-o a refletir, ele diz.

Para além da caricatura, do ponto de vista político o que se revela é uma “minitransição” incompleta, que impede o novo líder de caminhar com seus próprios pés na Venezuela. É necessário enfatizar o “mini”, pois não se trata de uma mudança de regime segundo o conceito acadêmico; não me refiro a uma mudança dramática como foram as aberturas democráticas da América Latina nos anos 1980.

Nem por isso é um processo menos capcioso ou mais previsível. Maduro herdou um país com sérios problemas econômicos, sendo o mais conspícuo deles uma escassez de produtos de consumo que afeta 20-30% dos itens dos supermercados venezuelanos – escassez concentrada em produtos alimentícios, setor no qual o índice chega a 80%. Não escapam nem as carnes nem harinapán, a farinha de milho para a arepa, o “pão” de milho venezuelano.

A inflação já chegou a 49% neste ano. Fazem parte do quebra-cabeças um controle excessivo e ineficiente do Estado da cadeia alimentícia – que o governo atribui a uma ação contra a “guerra econômica” das elites –, a falta de disponibilidade de dólares para importadores e um regime de câmbio irreal, onde o dólar no mercado negro é negociado a uma taxa nove vezes mais alta que a oficial.

Politicamente, Maduro carece do apoio político que Chávez controlava. Por um lado, precisa apaziguar as forças mais radicais do partido do governo.

Por outro, enfrenta uma oposição que ganhou espaço nas últimas eleições presidenciais seguindo uma dupla estratégia de 1) incorporar em seu discurso uma parte da agenda social voltada para atender aos venezuelanos mais pobres e 2) buscar distanciamento da ultradireita que apoiou o golpe de Estado contra Chávez em 2002.

Neste contexto, que também precede eleições municipais marcadas para 8 de dezembro, é compreensível que Maduro tente espremer ao máximo o benefício de sua proximidade com Chávez. Mas para preservar a sua base de poder, ele pode estar adiando estabilidade de longo prazo em troca de um benefício eleitoral imediato.

Porque no fim das contas, os mortos e os vivos precisam se separar; não há como escapar desta realidade. É uma transição emocional e, em um país como a Venezuela, política na mesmíssima medida.

Foto: Nicolás Maduro presenteia Dilma Rousseff com retrato de Chávez em maio de  2013. (Foto: Valter Campanato/ABr)

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