Brasil, Venezuela, e as ‘bruxas’ em protestos violentos

É INFORTÚNIO, porém ilustrativo, que protestos recentes no Brasil e na Venezuela tenham resultado em mortes. Respeitados os distintos contextos, as reações oficiais ilustram a preocupante lacuna democrática que existe entre uma sociedade e outra.

No Brasil, a vítima foi o cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Machado, cujos pormenores os brasileiros já conhecem; na Venezuela, três pessoas – pelo menos uma delas identificada como simpatizante do chavismo – foram mortas durante uma passeata contra o governo.

No Brasil, os desenlaces se centraram na investigação policial que levou à prisão de dois suspeitos de serem os autores diretos do crime; na Venezuela, o governo do presidente Nicolás Maduro decretou a prisão do líder opositor radical Leopoldo López por insuflar os protestos.

Ponhamos os pingos nos i’s: López sabe o lugar que ocupam na oposição venezuelana. Assumiu com gosto o papel de direita raivosa, radical e elitista que busca a queda do governo a qualquer custo. Tão à direita que uma parte da oposição o considera um “aventureiro”, como descreve esta reportagem da correspondente da BBC Brasil em Caracas, Cláudia Jardim.

Em um país dividido, polarizado, entrincheirado, só é necessário acender uma fagulha para criar espasmos fatais de turbulência social. Em abril do ano passado, sob o chamado de Henrique Capriles Radonski, multidões saíram às ruas para pressionar por uma recontagem de votos nas eleições presidenciais. O resultado foi mais de meia dúzia de mortos. Percebendo o perigo real da retórica, Radonski cancelou uma megapasseata que estava marcada para dali a poucos dias, que certamente acirraria os ânimos e muito provavelmente levaria a mais mortes.

Protestar, entretanto, é um direito da oposição, e convocar protestos é o dever dos seus líderes, como bem observa Clóvis Rossi neste artigo para o jornal Folha de S. Paulo. Na Venezuela, abundam razões econômicas e políticas para sair às ruas.

É preocupante que, ao decretar a prisão de López, o governo venezuelano não tenha oferecido evidências concretas implicando o opositor nas mortes originadas pelos protestos, por mais virulenta que seja a sua retórica. Um comunicado oficial diz apenas que “o mundo deve saber que há provas suficientes de que os grupos que originaram a violência dos últimos dias são liderados pelo senhor Leopoldo López”. Que provas, o “mundo” fica sem saber.

eopoldo lópez, coordinador nacional de Voluntad Popular
Leopoldo López, líder da oposição radical (Foto: Daniel Dominguez19/ Wiki Media Commons)

Compare-se esta realidade à da morte do cinegrafista Santiago Andrade, em protestos no Brasil. Foram presos os dois rapazes que admitiram portar e acender o rojão que matou o profissional que trabalhava nas manifestações. Separadamente, discute-se a responsabilidade da esquerda radical (ou da direita; ou da mídia; ou do governo; etc) para com um estado de ânimos que transbordou em um morto. Apesar do maniqueísmo e do acirramento na política brasileira estes dias, percebe-se que as duas coisas estão a anos-luz de distância.

A diferença está na materialidade do delito. Não se pode prender um cidadão sem que haja indício material de que tenha cometido um crime. Numa democracia em que a justiça é para todos, o benefício da dúvida também deve ser.

Mercosul, sempre amigo

Talvez isso explique a minha leve sensação de desconforto ao ler o comunicado oficial do Mercosul sobre os acontecimentos na Venezuela.

O texto condena as mortes e o que chama de “tentativas de desestabilizar a ordem democrática” no país. Os países membros pedem às partes que “continuem a aprofundar o diálogo sobre as questões nacionais, dentro do quadro das instituições democráticas e do Estado de direito, como tem sido promovido pelo presidente Nicolás Maduro nas últimas semanas, com todos os setores da sociedade, incluindo parlamentares, prefeitos e governadores de todos os partidos políticos representados”.

Não estou convencido de que o comunicado do Mercosul encontre o perfeito equilíbrio e imparcialidade. Parece-me que cai no maniqueísmo do nós contra eles, equiparando os inimigos do governo a mortes e quebra da normalidade institucional. O Brasil é signatário do acordo do Mercosul. A presidência rotativa do bloco cabe atualmente à Venezuela.

Já os EUA emitiram um comunicado expressando a sua preocupação com as prisões decretadas pelo governo venezuelano. O secretário americano de Estado, John Kerry, disse que as detenções têm um efeito “arrepiante” nas liberdades fundamentais de livre expressão no país.

Em resposta, o governo venezuelano expulsou três diplomatas americanos de Caracas, acusando-os de “conspiração” contra o governo.

Foto: Protesto estudantil em Valencia/ Feb 2014 (Cristian Garrido Paez / Wiki Media Commons)

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