Precisamos falar (honestamente) sobre a Venezuela

Publicado no Blog do Sakamoto, em 08/08/2017

Veio do Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU a crítica mais tarimbada até o momento ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

“Indícios de uso sistemático e abrangente de força desproporcional e às vezes fatal” contra manifestantes; “prisões arbitrárias” de pessoas que participam dos protestos antigoverno; diversos relatos de tortura e até de violência sexual contra pessoas que fazem oposição ao líder venezuelano.

As críticas estão no relatório divulgado, nesta terça (8), pela organização, a partir de investigações feitas por pesquisadores em campo. O documento põe 46 mortes diretamente na conta das forças de segurança e outras 27 na conta de grupos armados a favor do governo.

Acusações assim deveriam preocupar a todos e merecer uma investigação oficial decente. Porém, com exceção de declarações esparsas de Maduro, prometendo investigar alguns incidentes, até agora o governo tem feito pouco para esclarecer os fatos.

Enquanto a situação política, social e econômica venezuelana se deteriora, espectadores no resto do mundo parecem continuar divididos entre os pró e antiMaduro, seguindo as linhas estabelecidas de duas narrativas que procuram rejeitar uma a outra.

O tema merece uma reflexão mais profunda e honesta. Tenho viajado frequentemente à Venezuela desde 2000, acompanhando o chavismo desde o seu nascimento e a evolução da oposição ao longo desses anos.

Pude constatar que, em um país que atravessou dois golpes fracassados e um número desconhecido de tentativas frustradas só no último quarto de século, a quebra institucional nunca esteve muito distante.

Agora, porém, há fatores que estão empurrando rapidamente o país para o abismo. Entre eles, a banalização do radicalismo político e uma aparente disposição dos Estados Unidos de influenciar mais abertamente os eventos no vizinho sulamericano.

O primeiro fator explica como chegamos aonde chegamos e às vezes ainda me deixa perplexo.

Houve um tempo, ali por meados da década passada, em que o discurso radical parecia estar se diluindo. Fonte de radicalismo, a ala extrema da oposição definhava após promover um fracassado um golpe em 2002 e um locaute patronal em 2003.

Anos depois, a oposição ganhava até um semblante de moderação nas declarações públicas de Henrique Capriles Radonski.

Caro leitor, peço que faça aqui uma pausa para reflexão. Um indivíduo que hibernasse naquela época e acordasse agora se surpreenderia com a dramática mudança na situação de instabilidade política e social do país.

Hoje, os radicais substituíram os moderados; perdeu-se a vergonha de advogar-se abertamente pelas causas mais extremas. Líderes da oposição radical que parecia fadada ao esquecimento voltaram a formar o eixo central do discurso opositor.

Entre esses estão Antonio Ledezma, Leopoldo López, Maria Corina Machado e Ramos Allup. Sua única proposta nesses últimos 20 anos tem sido exigir a saída do presidente, sem um plano para atender à camada mais pobre que genuinamente se beneficiou das políticas chavistas.

O que explica essa mudança dramática? Muitos fatores.

Auto-intitulados ‘Escuderos’ confrontando a polícia em protesto na Venezuela (Foto: Jamez42/Wiki Media Commons)

Os permanentes ataques de uma elite que nunca aceitou o chavismo, sim. Mas também uma série de ineficiências por parte do governo, a percepção popular de que o comando chavista se transformou ele mesmo em uma elite, a deterioração econômica e as dificuldades do chavismo de sobreviver sem o seu fundador.

Esse último ponto não é apenas uma conclusão lógica a partir da morte de Chávez, mas um fato determinante porque, sem ele, Maduro precisa desenhar um sistema que lhe garanta a permanência no poder sem precisar se equivaler a seu mentor.

E o faz sem sutilezas. Quando a oposição conquistou a Assembleia Nacional, em 2015, com a proposta única de conclamar um referendo para revogar o mandato de Maduro, a resposta do governo foi manobrar para evitar o referendo e inabilitar, na prática, o Poder Legislativo do país.

Teria Chávez feito o mesmo, ou aceitado se medir com a oposição nas urnas? Ou antes: se Chávez estivesse vivo, teria a oposição vencido as eleições de 2015 em primeiro lugar? Impossível responder a essas especulações.

Ao avanço da oposição, o governo alegou a necessidade de uma Assembleia Constituinte que, convocada inteiramente sob as asas do governo, recebeu carta branca para reescrever o país à sua maneira.

Os relatos arrepiantes de violência, intimidação e outras coisas escabrosas são uma escalada preocupante da lógica do conflito venezuelano.

Os anos recentes foram uma sucessão de batalhas em que a oposição falou com inflexibilidade e Maduro respondeu com autoritarismo. Usar as forças do Estado para cometer abusos, porém, criam uma nova dimensão para a crise venezuelana.

Sem que se volte a um mínimo de regras acordadas por ambos os lados, é difícil ver a saída. Deixada à sua própria sorte, a solução para a Venezuela pode vir de forma caótica e inconstitucional.

De dentro: É cedo para avaliar se o incidente na base militar de Valencia, no fim de semana (em que o governo venezuelano afirma ter contido um motim), reflete um maior descontentamento entre as camadas mais baixas ou se o incidente foi isolado – ou mesmo plantado.

De fora: O governo Donald Trump deu na semana passada a declaração mais clara até então de que poderá influir na situação hemisférica. Palavras do secretário norte-americano de Estado, Rex Tillerson: “Estamos avaliando todas as nossas opção de políticas que podemos adotar para criar uma mudança de condições, na qual ou Maduro decide que não tem futuro, e decide sair por conta própria, ou podemos retornar os processos governamentais de volta à sua Constituição”.

“É uma discussão de políticas que está atualmente em desenvolvimento através de um processo [de coordenação] entre as agências [de governo] esta semana.”

Abstenho-me de tentar interpretar as palavras do secretário norte-americano. Algo me diz que se ações vierem, não serão na forma de diálogo – nem moderação.

Nossa história nos porões da ditadura

NA MINHA MENINICE, nunca achei que meu pai fosse super-herói. Mas eu sabia que ele era um homem forte.

Diziam que, nos anos de chumbo, tinha apanhado tanto que, certa vez, os algozes do regime militar lhe haviam quebrado um cacetete no peito.

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Brasil, Venezuela, e as ‘bruxas’ em protestos violentos

É INFORTÚNIO, porém ilustrativo, que protestos recentes no Brasil e na Venezuela tenham resultado em mortes. Respeitados os distintos contextos, as reações oficiais ilustram a preocupante lacuna democrática que existe entre uma sociedade e outra.

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Maduro: Vitória política, abacaxi econômico

PASSADAS AS ELEIÇÕES municipais do último fim de semana na Venezuela – vencidas pelo governo com significativa margem – o presidente Nicolás Maduro terá de fazer escolhas políticas difíceis para resolver uma das mais complexas situações econômicas da história recente do país.

Analistas avaliam que, pela primeira vez desde a apertada eleição presidencial de abril, Maduro conseguiu se reaproximar da base de apoio chavista e levantou certo capital político – que poderá empregar na adoção de medidas para solucionar uma lista de problemas agudos.

Por outro lado, ele presidirá um governo cuja tendência no campo econômico analistas ainda consideram difícil de decifrar.

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Oposição chama – e perde – ‘plebiscito’ na Venezuela

O RESULTADO DAS eleições venezuelanas do domingo passado indicaram mais uma vez a incapacidade da oposição de levar em conta as aspirações concretas e cotidianas dos venezuelanos, como um médico que decide um diagnóstico e ignora o dado mais básico do paciente, a temperatura que o termômetro está mostrando.

A estratégia do líder da oposição, Henrique Capriles Radonski, de transformar as eleições municipais em um “plebiscito” contra o governo saiu pela culatra: 76% dos municípios venezuelanos ficaram sob controle chavista e 23% sob controle da oposição, com uma diferença de 1,1 milhão de votos.

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Venezuela: Santo Chávez, transição incompleta

ZAPEANDO PELOS canais de TV, às vezes me detenho em um programa chamado Long Island Medium, sobre uma médium de Long Island, estado de Nova York, que viaja pelos EUA oferecendo consultas a famílias que perderem um ente querido.

Somos, os telespectadores, apresentados a famílias que precisam ouvir de seus falecidos uma palavra final antes de poderem prosseguir com suas vidas. A eles, a médium e apresentadora Theresa Caputo oferece uma rápida consulta – e todos seguem adiante.

Que os céticos duvidem dos poderes especiais de Theresa, me parece irrelevante: sua missão não é simplesmente ouvir os mortos, mas dar uma chance aos vivos.

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Maduro’s devotion to Chavez: Unfinished business

FLICKING THROUGH TV channels, I sometimes stop on a programme called Long Island Medium. The storyline is: presenter and medium Theresa Caputo travels around the States meeting people whose loved ones died and left unfinished businesses in this world.

The families she meets need to hear a final word from their departed ones before they can resume their lives. So Theresa gives them a quick ‘reading’ and on they move.

The fact that many wouldn’t believe Theresa’s special power is for me beside the point: her crusade is not about hearing the dead, but empowering the living.

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